‘Fui criado com mãe e avó e nunca tive contato com tráfico’, diz jovem sobre frases de Mourão


Os irmãos Lucas e Gustavo foram criados pela mãe, a vendedora Cláudia Helena, em Petrópolis | Foto: Arquivo pessoal

Os irmãos Lucas e Gustavo da Silva Dias, de 22 e 20 anos, respectivamente, não convivem com o pai. No entanto, esse fato não levou, segundo Lucas, os dois jovens a “cometerem crimes, se envolverem em atos ilegais ou entrarem para o mundo do narcotráfico”. Muito pelo contrário: ele, que mora em Petrópolis, na Região Serrana, estuda Farmácia em uma universidade federal e o irmão seguiu a carreira militar.

— Eu não acredito nisso, não tenho como levar a sério essa declaração (do general Mourão. Eu e o meu irmão fomos criados por mulheres, que nos ensinaram os valores da vida e a ter respeito acima de tudo. A minha mãe sempre me deu todo o suporte necessário para a minha formação. Nunca sentimos essa ausência de forma negativa — afirma Lucas, reforçando toda a sua revolta: — Essa declaração não me representa!

A declaração de Lucas é uma resposta à declaração do vice de Jair Bolsonaro (PSL) na disputa pela presidência, o general Hamilton Mourão (PRTB). O militar afirmou, durante uma palestra, que o narcotráfico se instala em áreas “sem pai nem avô”, análise feita por meio de uma “constatação” do que ocorre em favelas. Segundo ele, ambientes apenas com “mãe e avó” seriam “fábricas de elementos desajustados”, de pessoas “que tendem a ingressar nas narcoquadrilhas que afetam o país”.

O jornalista Emerson Oliveira, de 25 anos, diz que o general desconhece a realidade de muitas pessoas. Segundo os números do IBGE, 16,3 % das famílias brasileiras são formadas por mulheres com filhos e sem um cônjuge, ou seja, sem a presença masculina do pai em casa — cerca de 11,6 milhões de famílias entre as 71,2 milhões existentes no país. Para Emerson, esse posicionamento do general Mourão ofende a qualquer um que, por algum motivo, não teve o pai ao lado durante a criação.

— Fui criado, sim, com minha mãe e minha avó e nunca tive qualquer contato com o narcotráfico, sempre fui bem instruído. Eu entrei na escola com 2 anos de idade e estudo até hoje. Não deixei de ser quem sou por não ter tido o meu pai me criando. Elas sempre foram bons exemplos. Foi uma declaração bastante equivocada a do general.

Apesar de pesquisas indicarem uma possível relação entre a criminalidade e a desestrutura familiar, a coordenadora do curso de Pedagogia da Universidade Celso Lisboa, Ludmila Schulz, afirma que muitos desses estudos foram elaborados em um contexto que considerava apenas o modo binário de família, formada por um homem e uma mulher, sem incluir as muitas outras configurações familiares existentes hoje. Além disso, há outros fatores que influenciam a construção de um cidadão, como a fome, o desemprego ou até mesmo uma gravidez indesejada.

— Há todo um meio que influencia, e não apenas a ausência do pai em casa. O ambiente cultural e de convivência da criança com a família diz muito também.

Ela comenta que a figura paterna dentro de novos arranjos familiares pode ser substituída por alguém que o represente, tenha um vínculo com a criança e que participe ativamente da vida dela, como acontece com casais lésbicos, onde não há a presença masculina de fato.

— O que realmente importa dentro de um ambiente familiar no que diz respeito à construção do caráter são os valores éticos e morais, crenças e princípios repassados por meio do diálogo, da interação e, principalmente, do exemplo.

Aline Matos, de 36 anos, faz coro:

— Fui criada pela minha mãe, minha vó e minhas tias. E isso não me impediu de estudar, me formar e construir a minha família. A ausência do meu pai em casa não me tornou uma pessoa pior ou melhor. Tudo que eu tive, me supriu. Não senti falta de nada na formação do meu caráter. Recebi amor, educação e carinho de mulheres incríveis — diz, orgulhosa, a empresária formada em Marketing.

Aline Matos afirma que o amor e carinho oferecidos pelas mulheres que a criaram foram essenciais para sua formação | Foto: Arquivo pessoal

‘Um misto de indignação com incredulidade’

A gestora ambiental Erika Lopes, de 27 anos, também nunca teve a presença masculina dentro de casa. Fruto de produção independente, a jovem foi criada pela mãe, a administradora aposentada Isabel Lopes, de 66 anos, e pela avó, a também aposentada Enilda Lopes, de 97, no bairro do Grajaú, na Zona Norte. Para Erika, a ausência do pai não foi motivo de dor, nem significou alguma falha na sua criação.

— Quando eu li a frase dita pelo general Mourão, senti um misto de indignação com incredulidade. Não só a minha, mas muitas outras famílias, inclusive em situações bem diferentes, viveram, vivem e vão viver sem figuras masculinas. Eu nunca senti falta dessa presença, e nem tive curiosidade de conhecer o meu pai.

A psicóloga Adriana Cabana, do Centro Pediátrico da Lagoa Prontobaby, destaca que o importante na formação do caráter de uma pessoa não é o gênero de quem a cria, mas sim os valores que são transmitidos. Ela desconhece estudos científicos que comprovem a tese do general Mourão e lembra que qualquer pessoa pode se tornar um “desajustado”, desde que o ambiente em que vive propicie tal comportamento.

— Existem diversas famílias onde filhos são criados sem pais e sem mães e que não percebemos desajustes de caráter. Ética, respeito ao próximo, respeito às diferenças de raça, cor e credo, respeito às escolhas de cada um: isso sim importa. Não é a configuração familiar, seja ela de que modo for constituída, que moldará o caráter de um sujeito e sim o modo como os valores são transmitidos.

Isabel Lopes, mãe de Erika, revela que sentiu medo quando entendeu que estava construindo uma família diferente do modelo tradicional, mas que isso não a impediu de realizar o sonho de ser mãe:

— Há 27 anos, foi uma decisão muito difícil. Naquela época, não tínhamos a compreensão das tantas configurações familiares existentes. Contei com a ajuda da minha mãe, a Erika cresceu sem mentiras e se tornou uma adulta forte, de muito bom caráter, feliz e plena. É uma infelicidade achar que ambientes só com mães e avós formam elementos desajustados. Deu certo comigo, dá certo com muitas outras famílias — assinala.

Link original | Por Diego Amorim para Jornal Extra, com colaboração de Laura França, psicóloga | 12/08/18

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