Especialistas explicam como ajustar a rotina, melhorar a higiene do sono e lidar com despertares difíceis na infância e na adolescência
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“Minha filha de 6 ans só quer ser a última a dormir todos os dias, por volta de 0h ou 1h. O que fazer para ela dormir mais cedo?”
“Meu filho de 11 anos começou a não conseguir acordar pela manhã. Pode mexer, virar e ele não acorda. Quando conseguimos, ele acorda muito assustado e aterrorizado. O que fazer?”
O tema sono infantil tira o sono de pais e mães desde sempre: não por acaso proliferam na internet e nas prateleiras das livrarias técnicas infalíveis de como fazer um recém-nascido dormir a noite toda. Eu, na direção oposta, confesso que nunca segui muito as regras e fiz coisas que as “coaches do sono” infantil nunca perdoariam.
Passei muitas madrugadas em claro amamentando, com um bebê faminto que acordava a cada três horas para mamar. Também nunca fui adepta da rotina do sono, luzes apagadas e silêncio absoluto. Minha filha dormia com bastante barulho e em qualquer lugar, desde que estivesse num sling.
Hoje, aos 7 anos, ela dorme muito bem, obrigada, entre nove e 11 horas por noite, e também bem mais tarde que a maioria das crianças da idade dela — também acorda bem mais tarde, o que confesso se encaixa como uma luva na minha rotina de jornalista.
Parte das perguntas que recebemos esta semana poderiam, portanto, ter sido feitas por mim. Mas afinal, o que é um sono satisfatório para uma criança? Ela pode dormir mais tarde, ou isso faz mal à saúde? Abaixo, dois especialistas respondem essas e outras dúvidas e dão dicas de como melhorar a higiene do sono em qualquer idade.
Palavra dos especialistas 👩🏫👨🏫
Cláudio D’Elia – Pneumologista pediátrico do Prontobaby – Hospital da Criança, especialista em Cronobiologia e Medicina do Sono
😴 Uma criança que dorme até tarde está exibindo um comportamento muito comum, mas que tem raízes tanto na cronobiologia (no relógio biológico) quanto na psicologia infantil. Dividindo o problema em partes, primeiramente devemos admitir que cada pessoa tem um ritmo circadiano único. Algumas são matutinas e outras são vespertinas. É possível que sua filha tenha uma tendência natural a ser vespertina, com um pico de alerta e energia que se estende pela noite. Isso em parte é genético.
🌙 Por outro lado, ficar acordada até tarde pode dar a ela uma sensação de controle e independência. É o momento em que os adultos estão disponíveis, a casa está quieta, e ela tem atenção exclusiva. Dormir pode ser visto como “perder algo importante”.
⏰ Se ela está habituada a dormir sempre após a meia-noite, o relógio biológico dela está fixado neste horário, sendo um ciclo difícil de quebrar. Deve ser oferecido um plano de ação gradual. Não há como mudar isso de um dia para o outro. Deverá ser um processo de ajuste do relógio biológico, feito com paciência e consistência.
🌞 O objetivo é avançar gradualmente a hora do sono. Os cochilos no período da tarde, se for uma criança em idade escolar, deverão ser eliminados. A exposição à luz solar natural logo cedo, mesmo que por 15-20 minutos, ajuda a avançar o relógio biológico. À noite, seria importante reduzir significativamente a luz artificial, pelo menos 1h30min antes do horário que desejamos que a criança adormeça.
🛏️ Diminua as luzes da casa e evite telas. Se for uma criança pequena, crie um ritual imutável de 45-60 minutos, sempre na mesma ordem. Não tente colocar na cama às 21h do nada. Comece colocando-a para descansar 15 minutos mais cedo do que o habitual. Mantenha por 2-3 noites até ela se adaptar. Depois, avance mais 15 minutos. Repita até chegar ao horário desejado. Isso é mais eficaz e menos estressante que mudanças bruscas.
🌅 É mais importante regular a hora de despertar do que a de dormir. Acorde-a no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana, com luz abundante. Assim, à noite, o cansaço virá mais cedo.
🧑🎓 Durante a adolescência, ocorrem mudanças no sistema circadiano. Há um atraso natural do relógio biológico interno. A melatonina, que é o nosso hormônio do sono, começa a ser produzida mais tarde. O adolescente simplesmente não sente sono no horário “convencional”. Há determinados comportamentos que, com a fisiologia, reforçam um círculo vicioso. Dentre estes, um dos principais seria a exposição à luz intensa no período noturno – o uso de celulares, tablets, computadores e TVs até tarde agrava o atraso fisiológico. A luz azul “engana” o cérebro, fazendo-o acreditar que ainda é dia.
😵 Já a dificuldade para acordar pode ser um sinal de privação de sono ou de um sono de má qualidade. O cérebro pode estar em um estágio de sono tão profundo (sono de ondas lentas) no momento que tentam despertá-lo, que ele simplesmente não consegue responder aos estímulos.
❓ Será que ele inicia o sono bem mais tarde em relação ao horário que vai para a cama e não completa todos os ciclos de sono necessários? Algo pode estar interrompendo o sono repetidamente durante a noite, sem que ele chegue a despertar totalmente, como a apneia do sono ou ansiedade.
😱 O despertar assustado e aterrorizado pode acontecer quando a pessoa é forçadamente despertada de um estágio de sono profundo inadequado. Isso tem um nome na ciência do sono: ‘inércia do sono’. E ela é muito mais intensa e duradoura quando interrompemos o sono de ondas lentas, que é o sono mais profundo e restaurador. O cérebro dormindo não está desligado, está em modo de manutenção profunda . Em casos mais extremos, pode haver reações de pânico ou terror – que é o que você está observando. O sistema límbico (centro das emoções) pode ser ativado antes do córtex pré-frontal (centro do raciocínio), levando a uma reação emocional primitiva e avassaladora sem uma causa lógica aparente.
🔎 Para evitar um despertar confuso e aterrorizado pela ativação caótica e desregulada do cérebro, tente não o acordar como descreveu e investigue as prováveis causas. O objetivo é garantir um sono de qualidade, com uma duração adequada. Garanta que o horário de dormir seja suficientemente cedo para ele dormir as horas necessárias para sua idade. Uma criança de 10 anos precisa de nove a 11 horas.
📌 Observe se há sinais de sono fragmentado: ele ronca alto ou tem pausas na respiração? Transpira a noite toda? Respira predominantemente pela boca? Esses sinais indicam distúrbios respiratórios do sono (como apneia). Avalie a rotina dele. Excesso de atividades extracurriculares, pressão escolar ou ansiedade podem se manifestar durante o sono.
Cristina Mendes Gigliotti Borsari – Coordenadora do Setor de Psicologia do Sabará Hospital Infantil, em São Paulo
🌙 Muitos pais sofrem com esse dilema do horário adequado para os filhos dormirem e isso gera muita preocupação, afinal uma boa noite de sono garante melhor disposição e melhor aprendizagem. Portanto, para sua filha dormir mais cedo o ideal é criar uma rotina e mudar qualquer ciclo vicioso que esteja interferindo nesse comportamento, como acordar tarde, usar eletrônicos na cama ou mesmo ficar fazendo atividades que estimulam o cérebro ao invés de acalmar.
🛏️ O ideal é começar de forma gradativa, acordando a criança mais cedo se ela dorme até tarde, e também mudar a rotina de ir para o quarto, uns 30 minutos antes do habitual. Mudar a rotina de sua filha pode ser transformador, como um banho relaxante, exercitar a leitura, luzes muito claras apagadas, poderia usar um abajur.
📵 É importante criar um ritual para dormir, em que a criança seja a protagonista dessa mudança. Algumas dicas: elimine as telas e eletrônicos após o jantar ou duas horas antes do horário de dormir. Evite a todo custo qualquer atividade agitada, como música alta, luzes ou fatores ambientais que estimulam muito a criança.
💤 É necessário mudar o ambiente e muitas vezes a rotina dos próprios pais, indo para o quarto mais cedo, criando um ritual com opções de relaxamento e conforto. Explicar sobre o sono e a importância de dormir cedo também é importante.
⚠️ Já no segundo caso, podemos estar diante de uma alteração de comportamento que pode ser resultado de algum fator emocional, ou de regulação hormonal ou até de distúrbio do comportamento, como o terror noturno, que na verdade é um distúrbio do sono, muito comum na infância.
😰 O acordar assustado, aterrorizado chama bastante atenção e o ideal primeiramente é fazer uma avaliação médica, já que muitos fatores precisam ser avaliados e mensurados nesse contexto. O distúrbio do sono é muito comum em alguma fase da infância e pode indicar descompensação emocional como ansiedade e estresse; e até a própria privação do sono ou um sono entrecortado durante a madrugada podem desencadear essa alteração.
👀 Observar a frequência com que esse comportamento acontece, se a higiene do sono está adequada e se a criança consegue falar sobre seus sentimentos e emoções. Assim, uma avaliação com o pediatra, neurologista ou psicólogo pode ajudar a criança a ter mais qualidade de sono e consequentemente melhor qualidade de vida.
DESCOMPLICA. Em resumo, o que dizem os especialistas
⏰ Ritmo biológico importa: cada criança tem um relógio interno próprio. Algumas tendem a ser mais vespertinas, e isso pode ter base genética, além de fatores emocionais e comportamentais.
🌙 Dormir tarde também pode ser comportamento aprendido: ficar acordado até mais tarde pode dar sensação de controle, independência e atenção exclusiva dos adultos, o que dificulta o adormecer.
🔄 Mudanças devem ser graduais: não adianta tentar antecipar o sono de forma brusca. O ideal é ajustar aos poucos, avançando o horário de dormir em intervalos de 15 minutos a cada poucos dias.
🛏️ Rotina e higiene do sono são essenciais: eliminar cochilos tardios, reduzir luzes e telas à noite, criar um ritual fixo de relaxamento (banho, leitura, luz baixa) e manter constância todos os dias, inclusive fins de semana.
🌅 Regular o horário de acordar é mais importante que o de dormir: acordar sempre no mesmo horário, com exposição à luz natural pela manhã, ajuda o corpo a sentir sono mais cedo à noite.
😵 Dificuldade extrema para acordar pode indicar sono insuficiente ou fragmentado: privação de sono, horários inadequados, ansiedade ou distúrbios como apneia podem levar a despertares confusos e assustadores.
😱 Despertar aterrorizado pode ser inércia do sono ou distúrbio do sono: acordar bruscamente do sono profundo pode causar pânico e confusão. Se for frequente, é importante investigar com pediatra e, se necessário, neurologista ou psicólogo.
NO RADAR. 5 livros sobre o sono infantil (para ler junto com as crianças) 📚
“Boa noite, Bo” (Kjersti Skomsvold e Mari Kanstad)
Todo mundo precisa descansar. A girafa, o urso, a lontra-marinha… e também o pequeno Bo. Esta história é sobre ele, sua mãe e todos os animais do planeta. Um livro para ser lido em voz alta na hora de dormir – ou para ser apreciado de olhos bem abertos, a qualquer momento do dia.
- “A casa sonolenta” (Audrey Wood e Don Wood)
Enquanto todos ao seu redor permanecem imersos em um sono profundo, uma pequena pulguinha desperta e começa a explorar o ambiente. O texto tem repetições que dão um tom sonolento, só interrompido pela pulguinha acordada.
- “Bocejo” (Illan Brenman e Renato Moriconi)
Um bocejo pode contagiar o outro e o outro e o outro… E quem sabe o mundo inteiro?
- “Não vou dormir” (Christiane Gribel e ilustração de Orlando)
A história trata de uma situação tão próxima do cotidiano infantil, resistir ao sono, e pode contribuir também para uma reflexão sobre a resistência da criança em respeitar os seus próprios limites e aqueles impostos pelos pais.
- “A noitinha chegou” (Carol Chaves)
Uma história de apoio na conduta da rotina do sono, que encoraja a criança a dormir tranquila com lembranças positivas do dia e a imagem acolhedora da mamãe.
Fonte:
- O Globo – https://oglobo.globo.com/blogs/meus-filhos-minhas-regras/post/2026/02/o-que-fazer-quando-as-criancas-nao-dormem-ou-nao-acordam-em-horarios-adequados.ghtml



